Informativo n. 68

Retrocesso Norte-Americano na Questão Ambiental

Por Heloisa Lescova

Não é segredo algum que as medidas adotadas pelo atual presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, seguem linhas sensivelmente diferentes das que pregava o ex- presidente Barack Obama. Além das questões sociais já muito comentadas, a ambiental está também em risco de sofrer sérios retrocessos, visto que Trump sinalizou em meados de abril que pretende assinar uma ordem executiva que vai rescindir, suspender ou revisar algumas regulações, incluindo o Plano de Energia Limpa.

O projeto em questão, assinado em 2015, no Acordo de Paris, pelo então presidente Barack Obama, sinaliza o compromisso dos EUA de cortar emissões de gases estufa provenientes do setor de geração de energia em 26% até 2025, com previsão de 32% até 2030. Muito criticada por diversos ambientalistas europeus, a medida pode não só afetar a questão climática mundial, como também a geração de empregos nos EUA e a liderança do país nos esforços globais na questão climática.

Thomas Stocker, cientista climático da Universidade de Bern, na Suíça, em entrevista à Associated Press, questiona o lema “America First”, contrapondo a vontade de liderar demonstrada pelo governo norte-americano com o retrocesso a uma tecnologia com mais de um século de idade. Em outra oportunidade, disse também que o país está abrindo mão da liderança e que a China é forte candidata a assumir o posto. Essa é a mesma opinião de Myles R. Allen, cientista climático da Universidade de Oxford e co-autor de um importante e recente estudo da Academia Nacional de Ciências sobre o custo de gases-estufa para a sociedade americana. “Eles (a China) devem receber bem a medida como uma chance para a assumir a liderança sobre os assuntos climáticos”.

É válido ressaltar a posição de Barbara Hendricks, ministra do meio ambiente da Alemanha, ao afirmar que a promoção de fontes renováveis de energia, como a eólica e a solar, cria muitos empregos em todo o mundo, bem como o alerta feito aos EUA: segundo ela, “engrenar a marcha à ré vai provocar danos a si mesmo quando se trata de competitividade internacional”.

Em um posicionamento esperançoso e carregado de conhecimento de política internacional, Sweelin Heuss, diretora executiva do Greenpeace na Alemanha, afirmou que os planos de Trump são “uma má notícia, mas não o fim do Acordo de Paris” e pediu que a chanceler alemã, Angela Merkel, exponha seu posicionamento contra as alterações que Donald Trump pretende implantar.

O ceticismo de Trump acerca das questões ambientais é apontado por muitos como fator de influência para o retrocesso em outros países. No México, a Câmara dos Deputados aprovou uma nova lei que, na prática, retira dos indígenas e de comunidades campesinas, que detém a propriedade de mais de 80% das florestas do país, a palavra final sobre o uso dos recursos da mata, sobre mineração no solo e tantas outras pautas.

“Se a administração Trump der as costas ao histórico Acordo de Paris, de 2015, as consequências diplomáticas serão imensas e negativas para os Estados Unidos em todas as dimensões – e numa escala muito maior do que foram as repercussões diplomáticas desfavoráveis quando George W. Bush retirou o país do Protocolo de Kyoto, em 2001, como admitido pelo próprio ex-secretário de Estado, Collin Powell. O ex-presidente chegou a dizer meses depois do ocorrido que um dos motivos para ter rejeitado Kyoto era que o protocolo prejudicava a economia americana”. Essa é a posição de Carlos Nobre, cientista e climatologista em recente artigo comentando a questão. Assume, ainda, postura otimista: o movimento mundial de desinvestimento em termoelétricas a carvão pode ser mesmo um caminho sem volta, diz ele.

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