Informativo n.65 – Resistência indígena

 

Por Alexandre Blois

Dia 12 de outubro, quarta feira, para praticamente todos os brasileiros foi mais um dia normal, acordar, trabalho, estudos, família, comer, dormir. Para certa parcela da população, entretanto, esse dia era uma data especial, principalmente para algumas comunidades tradicionais, esse era o dia da resistência indígena.

Essa data não foi escolhida ao acaso, ela primeiramente foi declarada em 2002 pela Venezuela, mesma data em que o estado espanhol comemora o seu dia nacional, exaltando a colonização espanhola nas Américas. Em contraponto a essa visão europeia, que glorifica esse processo, a mesma colonização é lembrada pelos indígenas como uma grande tragédia para os povos que já habitavam o continente americano.

Um dia que simboliza mais de cinco séculos de lutas dos povos tradicionais, luta que ultrapassou muito os limites de um embate físico porque, já em seu início, foi travada nos campos cultural, religioso e biológico, sempre pendendo para o lado dos estrangeiros. Mesmo depois do extermínio de praticamente 90% da população indígena brasileira, segundo estimativas, fruto do massacre violento e de doenças disseminadas pelo colonizador e da destruição da cultura original de diversas tribos que foram doutrinadas pelo estado brasileiro e pela Igreja, com o intuito de se assimilarem a civilização ocidental. Os confrontos desse embate secular continuam sendo travados por uma fração dessa população original, orgulhosa de suas raízes históricas e herança cultural.

Duas semanas antes da comemoração do dia da resistência, no dia 30/09, dois monumentos da cidade de São Paulo (Estátua do Borba Gato e o Monumento às Bandeiras) amanheceram pichados. Curiosamente ambos referem-se a personagens intimamente ligados ao sofrimento secular dos povos indígenas. Uma memória dolorosa para as comunidades indígenas, as duas obras exaltam personagens que tiveram papel central na escravização e extermínio da população indígena, não só na América portuguesa como também na América espanhola. Em nenhuma das obras existe qualquer referência ao caráter predatório da atuação dos bandeirantes paulistas, apenas a exaltação de personagens usados, principalmente na primeira metade do século XX, para a construção de um sentimento regional paulista, sentimento que perdura em grande parte da população até hoje.

É preciso frisar que nos últimos anos os embates entre as populações indígenas restantes e os proprietários de terras só vem se intensificando, fruto da política deficiente de demarcação de terras empreendida pelos últimos governos federais. Infelizmente as políticas de demarcação diminuíram vertiginosamente nos últimos anos, contribuindo para a intensificação dos atritos que muitas vezes culminam em assassinatos de integrantes dessas comunidades, geralmente a mando dos latifundiários. Essa escalada de violência não tem uma previsão otimista de término para o futuro, uma vez que o legislativo e o executivo cada vez mais demonstram desinteresse em proteger os direitos dessa parcela da população.

Enquanto a sociedade brasileira não se preocupar realmente com a população indígena, o dia da resistência indígena vai continuar sendo um dia corriqueiro para a esmagadora maioria da população. Dia que relembra a memória dos milhões que morreram na tentativa de defender sua cultura, os mesmos nativos que um dia também ajudaram o estabelecimento dos primeiros colonos na América e contribuíram para a formação do estado nacional brasileiro.

Informativo n.64 – Alimentação e Mudanças Climáticas

                                                                                                                                                            Por Rafaela Sedeh

Hoje, dia 16 de outubro, comemora-se o Dia Mundial da Alimentação. A data foi criada pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO – Food and Agriculture Organization) e busca dar visibilidade a questões de segurança alimentar e os problemas sociais relacionados a ela.

Levando-se em conta que diversos são os assuntos que se relacionam com a pauta, a cada ano é eleito um tema para o dia. Para 2016, foi escolhido “O clima está mudando. A alimentação e a agricultura também”. A escolha teve por base as estimativas de que, em 2050, a população mundial atingirá a marca de 9,6 bilhões de pessoas. Nesse sentido, para atender essa demanda, a produção de alimentos deveria crescer 60%. Mas será que temos as condições necessárias para atingir esse aumento?

Uma das preocupações que se tem a respeito é o fato de que as mudanças climáticas, as quais ocasionam secas, altas temperaturas e desastres relacionados a meteorologia adversa, têm seus piores efeitos sobre a parcela mais pobre da sociedade, da qual muitos são pequenos agricultores familiares, que são responsáveis por boa parte dos alimentos consumidos. Sendo assim, essas mudanças aparecem como um empecilho para o crescimento da produção alimentar que devemos alcançar e, consequentemente, como potencial fator de aumento da insegurança alimentar.

Atualmente, mais de 800 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar, ou seja, não têm acesso a uma alimentação saudável, de qualidade ou em quantidade suficiente para suprir suas necessidades. O impacto que as mudanças climáticas têm sobre a produção de alimentos, portanto, elevaria esse número e acabaria por impedir a concretização do primeiro dos objetivos do milênio, o de acabar com a fome e a miséria.

Muitas são as atitudes que estão ao nosso alcance para minimizar e, quem sabe, reverter esse quadro. A Sociedade Vegetariana Brasileira, em parceria com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, sustentando-se, entre outros, no pilar da proteção ao planeta Terra, lançou em São Paulo, em 2009, a campanha Segunda sem Carne. Já implementada em outros países, a campanha leva em conta que a indústria da carne é responsável por uma significativa parcela das emissões de gases causadores do efeito estufa, ultrapassando a quantidade emitida pelos transportes, segundo a FAO.

Essa e outras ações, ainda que em um primeiro momento possam parecer pequenas, quando pegas em sua totalidade, representam um grande avanço no sentido de contribuir para o alcance de um quadro mais otimista no que se refere à alimentação mundial. O dia 16 de outubro, sob o título que lhe foi dado, enseja uma reflexão a respeito de nossos hábitos diários, os quais, a partir de mudanças simples, podem constituir fatores relevantes para expandir a segurança alimentar ao redor do mundo.

Princípio 10 – Informativo N° 63 – Semana da Proteção à Fauna

Por Thomas T. Schaalmann

Em setembro de 2013, Vitor de Q. Piacentini escreveu um texto a respeito da simpática ave que se tornou noticia na época. Tratava-se do sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris). Entretanto, longe do ideal ambientalista, a ave não ganhou o interesse nacional devido seu melodioso canto, mas por atrapalhar o sono de muitos paulistanos, como afirma o autor. Em São Paulo, o sabiá iniciava seu canto característico às três horas da manhã, diferentemente do que se verifica em áreas vegetadas que a espécie ocorre.

Assim como muitas outras aves, o sabiá-laranjeira inicia sua temporada reprodutiva após o inverno e é por meio do canto que o macho atrai suas parceiras e demarca seu território. Nota-se, que o horário habitual desse ritual se inicia no começo do dia, por volta das 6 da manhã. O fato de adiantar seu canto reflete uma adaptação da ave mediante sua convivência com o ser humano e a cidade.

Quanto maior a distancia que seu canto percorra, maior as chances de encontrar uma parceira e de afastar outros machos. Entretanto, a espécie foi capaz de perceber que a modernidade possui sons aos quais não se consegue competir. De nada adiantando iniciar seus cantos nos horários habituais. Assim, para que as fêmeas possam ouvir o macho, é necessário que ele cante em um período mais silencioso. Como solução para isso, o sabiá-laranjeira passou a cantar às três horas da manhã nas áreas urbanas.

A adaptação acima descrita reflete o impacto do ser humano na fauna silvestre, que se vê obrigada a conviver com a contemporaneidade ou se extinguir. Cabe salientar que o relacionamento do ser humano com a fauna é imbuído de boa vontade com consequências desastrosas para a manutenção dessas espécies, tanto em vida livre quanto em convivência conosco.

Convêm constatar que a biodiversidade de nossa fauna representa um de nossos maiores tesouros. O Brasil é considerado um país megadiverso, contendo de 15% a 20% das espécies do planeta. Sendo o maior detentor de anfíbios (946 espécies), o terceiro maior detentor de aves (1901 espécies), o segundo maior detentor de mamíferos (713 espécies) e o terceiro maior detentor de répteis (744 espécies). Com efeito, entende-se que a proteção à fauna deva ocupar lugar de destaque nas diretrizes ambientais, considerando a difusão e consolidação de valores ambientais. Para isso, foi criada a Semana da Proteção à Fauna, que perdura de 4 a 10 de outubro.  Um período que enfatiza a importância da fauna no equilíbrio dos ecossistemas e da responsabilidade individual que devemos ter com seu habitat. Não havendo duvidas que a efetiva conservação e preservação dos animais que coabitam conosco depende, decisivamente, da participação da sociedade brasileira. Nesse cenário, devemos ser perseverantes na efusão dos princípios da educação ambiental.

Ressalta-se que a educação ambiental é um importante passo para a difusão do conhecimento, minimizando as principais ameaças à biodiversidade que são em primeiro lugar a perda de habitat, a introdução de espécies exóticas e o trafico de animais, revelando o impacto humano na deterioração do meio ambiente.

O sabiá-laranjeira foi capaz de se adaptar a cidade, entretanto isso não ocorre com a maioria das espécies. Somente algumas são capazes de coabitar ambientes urbanos, enquanto a imensa maioria passa a integrar listas que revelam a sua possível extinção. Resta-nos a proteção à fauna, como sugere a semana que ingressamos no dia 4 de outubro.

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