Princípio 10 – Informativo n. 56

|De simbologias à realidade: o espetáculo das Olimpíadas|

Por André Castilho

Teve início ontem, oficialmente, os Jogos Olímpicos 2016 do Rio de Janeiro. Na primeira vez que o maior evento esportivo do mundo é realizado na América Latina, pudemos presenciar uma das aberturas mais bonitas e emocionantes de todos os tempos, com a temática socioambiental como protagonista, na pura gambiarra brasileira.
Deixando na porta do estádio as conturbações políticas que o país vive – com exceção para as efusivas vaias a Michel Temer -, o Brasil fez bonito e apresentou para o mundo toda sua sociobiodiversidade. E, desde o início, mostrou sua história, sem esconder a aculturação sofrida por nossos povos indígenas e escancarando ao mundo grande parte dos causadores dos males sociais atuais. A ocupação urbana e a interação do ser humano com a cidade também foram objeto do espetáculo, com bela coreografia e efeitos tecnológicos envolvidos.
No palco do Maracanã, nome originário do Tupi, os indígenas tiveram participação importante na cerimônia, protagonizando grande apresentação artística, ao “construir” ocas iluminadas no centro do estádio. E a sustentabilidade foi tema central, desde uma bela reprodução cinematográfica sobre o aquecimento global e o aumento do nível do mar, até atitudes simbólicas, como o “legado” da Floresta dos Atletas e a bela Pira Olímpica, no núcleo de um Sol com baixas emissões de poluentes.
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Que a abertura foi algo digno de nota dez, não temos dúvidas. Ela encantou e emocionou mais de 3 bilhões de pessoas ao redor do globo. A mídia internacional estava eufórica. Se nos atentarmos às questões socioambientais, no entanto, temos de manter o pé atrás: as Olimpíadas não podiam ter tido abertura mais hipócrita e destoante do cenário nacional.
Em meio a grandes retrocessos socioambientais no país, como a busca incessante de setores ruralistas e de empreiteiras pelo fim do procedimento de Licenciamento Ambiental, pelo baixíssimo número de homologações de Terras Indígenas e por tantos outros motivos, inclusive os diretamente ligados aos jogos do Rio, como o descumprimento de quase todas as metas ambientais na cidade, temos que saber que a noite de ontem só terá sido relevante, caso os posicionamentos sociopolíticos mudem. A cultura e vida indígena não podem ser lembradas apenas em nomes de estádios e eventos específicos, quando convém chamá-las de “brasileiras”. E este é um verdadeiro desafio olímpico!
O brasileiro mostrou que, no quesito festa, sempre teremos a nota máxima. Agora temos que tentar reproduzi-la em nossas políticas socioambientais. Caso contrário, a cerimônia de abertura das Olimpíadas terá sido mais um capítulo de desrespeito para com a nossa natureza e os povos tradicionais.

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