Informativo nº 37 – Expo Milano 2015

Por Gisela Provasi

Neste sábado, dia 31 de outubro, encerra-se a edição 2015 da Exposição Universal. Chamada simplesmente “Expo”, esses eventos são muito tradicionais e acontecem desde o século XIX no cenário global. A escolha da sede está hoje atrelada a um órgão chamado BIE (no português, Oficina Internacional de Exposições). Cada Expo dura seis meses e é composta basicamente de inúmeros pavilhões construídos pelos países participantes, onde cada um apresenta sua contribuição ao debate.

Assim, cada exposição deverá trazer um tema geral de grande relevância para o cenário de sua atualidade, trazendo sempre questões de desenvolvimento para abrir aos países a possibilidade de apresentar suas propostas. O país-sede é o responsável pela construção da estrutura, que vai marcar a grandiosidade do evento, esta é uma questão portanto de bastante atenção. Talvez a mais famosa das Exposições tenha sido aquela realizada em Paris em 1889, pois foi o motivo da construção da famosa Torre Eiffel. Essa exposição celebrava os avanços da indústria e a construção da Torre foi uma forma de demonstra-los. (A curiosidade é que a Torre não foi inicialmente bem aceita pelos parisienses, e deveria ser desmontada ao fim da Exposição. Reportagem da revista Veja de 20 de novembro de 1889 dizia: “Se for mantida onde se encontra (a torre), coisa que ainda não está decidida, pode vir a ser muito mais o símbolo da própria Paris.”).

A proposta temática da Expo 2015 foi sobre a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável dos países na busca pela fome zero. A sustentabilidade estaria então no cerne de toda discussão e toda contribuição que ali acontecesse. Desde a construção das estruturas da Expo, até a pegada ecológica dos visitantes e, principalmente, as exposições dos pavilhões nacionais.

A questão alimentar será em breve discutida na França, em dezembro de 2015, durante a COP 21 em Paris, e possivelmente a Expo terá sido uma maneira de preparar o debate.

Durante meu intercâmbio em Paris, eu e um colega francês, Gabriel de la Fournière, que foi membro da CPaNN durante seu intercâmbio na USP, pudemos visitar a Expo nos seus dois primeiros dias de abertura, no início de junho de 2015. Essa experiência está relatada em um diário de viagem com fotos do evento, acessível neste link:

Expo Milano 2015

“Foi a capital da Lombardia a escolhida para sediar a “Expo”, a mais recente das famosas Exposições Universais, como a que está na origem da construção da Torre Eiffel, e esta adoção adotou como temática uma problemática bastante atual tendo como slogan: “Nutrir o planeta, energia para a vida” (ou Feeding the Planet, Energy for Life). O tema escolhido enfatiza a urgência em se buscar soluções que atendam às necessidades do Homem e da Terra: Como produzir mais em menores espaços? Que modos de vida e de consumo da nossa sociedade teríamos de mudar para tornar nossa alimentação mais sustentável? Como é que os diferentes países enxergam a questão da segurança alimentar e desenvolvimento? Foi a partir destes questionamentos que nós, Gabriel de la Fournière e Gisela Provasi, exploramos os dois primeiros dias de abertura deste evento global.

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Por: Gabriel de La Fournière

Contribuições e tradução de Gisela Provasi

Junho/2015

Visite o site oficial da Expo Milano 2015: http://www.expo2015.org/en

Informativo nº 36 – Manifestações indígenas e a PEC 215/2000

Por Gabriel Egidio

Nos dias 6 e 7 de outubro ocorreram duas audiências públicas da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, CDHM, para tratar sobre questões ligadas aos indígenas e quilombolas. O genocídio dessas minorias por milícias armadas ligadas a fazendeiros, o debate acerca da Proposta de Emenda à Constituição que incide sobre a demarcação de terras indígenas, além do avanço do agronegócio em detrimento das terras e vidas indígenas constavam como os principais temas discutidos.

Nesse ínterim, as lideranças indígenas ocuparam a Câmara dos Deputados por um dia, propondo uma intervenção aos avanços da bancada ruralista em retirar direitos, territórios e vidas do povo indígena. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, hostilizou os manifestantes propondo até que fossem removidos a força pela polícia legislativa, medida que só não ocorreu por pressões internas dos deputados, e não recebeu os representantes indígenas que propuseram um debate com o deputado. Houve também manifestações e atos pela Esplanada dos ministérios e a protocolação do documento político Nós Existimos e Estamos em Luta, da Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais, no Palácio do Planalto.

“Quantas lideranças precisam morrer e molhar a terra com seu sangue para que nossas terras sejam demarcadas?”, questiona Natanael Vilharva Guarani Kaiowá. A omissão do governo federal acerca da promulgação de novas demarcações, assim como a falta de fiscalização e presença do Estado nas áreas já demarcadas, intensifica os conflitos e as mortes. Em dez anos, 390 indígenas foram assassinados, além de milhares de feridos e ameaçados por fazendeiros. Apenas entre agosto e setembro desse ano uma liderança indígena foi assassinada e dez feridas. Os povos tradicionais estão desprotegidos, já que a proteção do Estado não alcança tais territórios, muitas vezes sendo utilizada por fazendeiros para fins de repressão de indígenas e minorias.

“A PEC 215 é para violar os direitos dos quilombolas e indígenas. Dá o direito e assegura, veementemente, dizendo assim: ‘as milícias podem matar que nada vai acontecer’. Essa PEC é um etnocídio aos povos e comunidades”, Antônio Nonato, do Movimento Quilombola do Maranhão (Moquibom). A PEC 215/2000 transfere do executivo para o legislativo as competências concernentes às demarcações de terras indígenas, quilombolas e unidades de conservação, além da ratificar os territórios já homologados. A proposta aguarda apreciação de uma comissão especial no Congresso, formada principalmente por integrantes da bancada ruralista, para posterior votação em ambas as casas, por maioria qualificada em dois turnos.

A principal crítica dos movimentos sociais, ambientais, indígenas e de minorias no Congresso, sobre a PEC 215, configura-se na associação de grandes empresas da indústria do agronegócio com parlamentares, além da ascensão da bancada ruralista, composta por latifundiários que visam apenas seus benefícios financeiros em detrimento dos direitos humanos dos indígenas e populações tradicionais. Assim a transferência de competência do executivo para o legislativo prejudicaria gravemente os direitos indígenas de autodeterminação, com a diminuição e extinção de demarcações de terras, legitimando a violência e os abusos dos fazendeiros. A rejeição da proposta é imprescindível para a manutenção dos direitos indígenas, além de novas políticas públicas eficazes nos territórios indígenas que garantam a sua sobrevivência e seu pleno desenvolvimento sustentável.

“Seguiremos fortalecidos em nossas resistências. Não nos calaremos diante de todas estas injustiças e tampouco deixaremos de lutar. Exigimos nossos direitos garantidos e que nossa dignidade humana seja respeitada. Nós existimos. Estamos vivos e em luta. Juntamos as nossas forças em favor da Vida. Que o Deus da Vida abençoe a nossa caminhada.” Articulação dos Povos e Comunidades Tradicionais.

Referências:

PEC 215:http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=14562
Nos Existimos e Estamos em Luta: http://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=8391&action=read
Ocupação da Câmara: http://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/indigenas-e-comunidades-tradicionais-ocupam-camara-e-cunha-ameaca-retira-los-a-forca
Entendendo a PEC: http://www.ipam.org.br/noticias/Territorios-Indigenas-em-risco-Entenda-a-questao-da-PEC-215/1908