Informativo nº 4 – A questão da água em São Paulo

Por Joana C. Bernardini

Há cerca de duas semanas o Fantástico fez uma matéria sobre o desmatamento na Amazônia.  Com explicações científicas generalizadas e tendenciosas, a matéria é superficial como qualquer outro programa sobre alimentos ou saúde do Globo Repórter. A matéria tem o intuito de nos convencer de que parte da culpa da seca do estado de São Paulo é do desmatamento da Floresta Amazônica. Presume-se, então, que a outra parte da culpa da seca deve ser de São Pedro. Mas não.

Este informativo não quer desmerecer a Globo ou o Fantástico, muito menos os dados dos estudos realizados pelo Inpe e Inpa, que embasam a reportagem. Mas, sim, chamar atenção ao que nós, interessados pelo meio ambiente, notamos na matéria e no discurso daqueles que não estão assim tão preocupados, seja qual for o motivo de um ou outro.

Nós percebemos que há um constante desvirtuamento da pessoa para com o ambiente em que está inserida, ou seja, ela não percebe que é parte integrante dele, e, pelo simples fato de existir, impacta positiva ou negativamente o todo. Explicamos: ao final da reportagem, a culpa pela seca foi transferida para outro lugar, para outras pessoas, de outro contexto. Os “supostos” desmatadores foram filmados e entrevistadas como os que “não tem dó da árvore” e identificados como os culpados pela seca em São Paulo. Em nenhum momento foi feita referência a todas as outras pessoas envolvidas no desmatamento, pois, segundo a reportagem, o desflorestamento era somente para uso da terra, caindo em contradição com a imagem das toras sobre o caminhão. Não deixa de ser uma tentativa de isentar os demais envolvidos no comércio ilegal de madeira que fomenta o desmate, podendo ser incluídos aí todo o sudeste do país. Todos sabemos, por exemplo, que não é difícil encontrar madeira “boa” em São Paulo.

Mas a realidade é que a outra parte da culpa pela seca no estado de São Paulo é dos paulistas e somente deles. Quando as cidades de São Paulo eram vilas, usávamos nossos rios como esgotos. São Paulo tem agora mais de 450 anos e um dos PIBs mais altos do mundo e ainda despeja cerca de metade dos seus dejetos em rios, para onde segue in natura a natureza de mais de 44 milhões de habitantes.  

Além de usar nossas águas como esgoto, desmatamos a nossa maior fonte de vapor para atmosfera, a Mata Atlântica.  Indiscutivelmente, ela contribuiria para reforçar os “rios voadores”, como chamou a reportagem, que viriam da Floresta Amazônica. No plano legal nacional, aprovamos um novo Código Florestal que permitiu uma maior exploração das áreas de manancial, diminuindo o raio de proteção dessas regiões e também das áreas de preservação permanente situadas às margens dos rios.

A Lei nº 9.433/97 disciplina a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH) e criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. De acordo com o art. 2º da norma, estão entre seus principais objetivos: (i) assegurar à atual e às futuras gerações a necessária disponibilidade de água com qualidade adequada para seu uso; (ii) o uso racional e integrado dos recursos hídricos, com vistas ao desenvolvimento sustentável; (iii) a prevenção e a defesa contra eventos hidrológicos críticos, quer sejam de origem natural, quer decorrentes do uso inadequado, não só das águas, mas também dos demais recursos naturais. Ainda na supracitada lei, o art. 3º estabelece diretrizes gerais de ação para implementação da PNRH, indicando: “I – a gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade”.

Em outras palavras, deve-se fazer um uso racional do recurso, que é limitado, nunca dissociando a abundância da qualidade das águas. Porém, é justamente o contrário que se faz desde sempre no estado paulista: a abundância do recurso em tempos anteriores fez com que se tomasse a liberdade para destinar metade dos nossos dejetos para as águas, que assumiram papel de esgoto.Temos uma taxa alarmante de 30% de desperdício na distribuição.  Nesse período de seca em São Paulo, essa indissociação se torna mais óbvia, pois havendo uma diminuição da abundância do recurso é crucial que se tenha maior qualidade, pelo menos. É nesse momento que se pode perguntar: você não “tem dó” de saber que metade dos dejetos que produz vai parar nos rios?  

Infelizmente, não é de se assustar que, em São Paulo, o gerenciamento dos recursos hídricos, ou a falta dele, se deu sob óticas exclusivamente setoriais ou sob a pressão de impulsos isolados, em desacordo com as necessidades e com a aglomeração e aumento urbanístico do estado. A impressão que se tem é que não houve nenhuma visão prospectiva diante das transformações socioeconômicas pelas quais passamos, que fosse capaz de situar a água nos contextos biótico e abiótico e também em um quadro de desenvolvimento sustentável para o estado.

Estamos em crise hídrica no estado e é séria a situação, pois ela não se resolverá com somente uma estação de chuva. Precisamos urgentemente repensar o uso que fazemos da água e dos rios: iniciemos com a conscientização de que somos os únicos culpados por essa situação, passemos a pensar melhor em quem votaremos para o governo do estado, cobremos posturas sustentáveis dos gestores dos nossos recursos hídricos (membros dos Comitês de Bacia, por exemplo) e assumamos uma ética de cuidado para com o recurso vital, tanto em relação aos nossos hábitos quanto ao nosso papel enquanto cidadãos paulistas, participantes e atentos.

Mais informações, alguns eventos e curiosidades:

http://www.cartacapital.com.br/dialogos-capitais/cartacapital-debate-de-quem-e-a-culpa-pela-falta-de-agua-em-sp-2538.html

https://www.youtube.com/watch?v=Fwh-cZfWNIc – Documentário “Entre rios”

http://planetasustentavel.abril.com.br/imagem/mapa-rios-invisiveis-planeta-parque-2014-2.jpg

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/da-agua-da-bica-a-sabesp-a-seca-em-sao-paulo-e-culpa-de-quem/

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